Estado pagou cerca de 1,5 milhões de euros em indemnizações a presos desde 2016

Para o secretário-geral da Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso, o número de queixas sobre a falta de condições nas prisões peca por defeito.

RTP /
Prisão de Caxias Foto: Ministério da Justiça

O Estado português pagou, nos últimos nove anos, cerca de 1,5 milhões de euros em indemnizações a reclusos detidos em celas consideradas desumanas e o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos ainda tem mais de 850 queixas pendentes.

No dia em que o Jornal de Notícias revela que mais de 850 presos pedem indemnizações junto do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH), devido à situação em que se encontram as instalações de vários estabelecimentos prisionais portugueses, Vítor Ilharco acusa o Governo de não agir perante uma situação que diz ser indigna.
“Todas estas queixas só pecam por escassas. Na realidade o que se passa nas cadeias é uma vergonha a nível europeu. As nossas cadeias são indignas”.

Em declarações à Antena 1, o secretário- geral da Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso admite entregar todas as semanas novas queixas de reclusos ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.
Vamos mandar para as cadeias avisos a todos os reclusos que se queiram queixar das suas situações”, acrescentou Vítor Ilharco que revelou que a associação já conta “com um grupo de advogados” a analisar a situação para apresentar a queixa ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.

Segundo o JN desta segunda-feira, 13 destas queixas sustentam um pedido para que os juízes europeus considerem que o país tem um “problema sistémico estrutural”, exigindo que, enquanto não houver uma intervenção profunda nas prisões, o Estado compense os presos em mil euros por cada mês de detenção em situação inapropriada.Ao jornal o Ministério da Justiça confirmou que “as indemnizações já arbitradas a reclusos ou ex-reclusos neste contexto totalizam aproximadamente 1,5 milhões de euros”.

As compensações, segundo o gabinete da ministra Rita Alarcão Júdice, resultaram de 14 condenações - cada uma delas envolvendo vários casos -, mas também de processos em que houve acordo entre o Estado e os queixosos ou em que Portugal reconheceu razão aos presos e decidiu, de forma unilateral, liquidar as indemnizações solicitadas.

Questionado pelo JN, o TEDH revelou que, nos últimos nove anos, analisou 280 queixas relativas às condições das cadeias nacionais, sendo que, destas, 40 por cento (112) foram arquivadas sem que fosse reconhecida razão ao preso.

O tribunal adiantou que, neste momento, esperam resolução outros 854 pedidos de indemnização por causa das condições precárias das cadeias portuguesas.
Jornal da Tarde | 12 de janeiro de 2026

Este número representa 90 por cento dos 957 processos pendentes referentes a Portugal. Treze das reclamações incluem pedidos de compensação entre os 12 mil e os 144 mil euros, feitos por reclusos a cumprir penas por crimes como tráfico de droga ou furtos.O pedido mais elevado é reclamado por uma mulher presa há dez anos por homicídio.

O advogado destes presos, Vítor Car­reto, usou estas queixas para requerer ao TEDH, em março do ano passado, que reconheça que as más condições das cadeias portuguesas são “um problema sistémico, estrutural” e violador da Convenção Europeia.

“As condições em que os reclusos queixosos se encontram, alguns há muitos anos, traduzem tratamento degradante”, justifica Vítor Carreto, citado pelo JN.

No âmbito de um Case Pilot - mecanismo processual especial do TEDH -, o advogado quer que os juízes europeus obriguem o Estado a encerrar, no prazo de um ano, 12 cadeias e avance com medidas que permitam que cada preso tenha “um espaço de área útil pessoal de, pelo menos, sete metros quadrados na cela, além dos móveis e casa de banho”.

c/ Lusa
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